top of page

Para ouvir: Duo Clavis

  • Foto do escritor: Ranulfo Pedreiro
    Ranulfo Pedreiro
  • 9 de out. de 2020
  • 12 min de leitura

Daqui a pouco (sexta, 9/10, às 20hs) teremos uma live do Duo Clavis, formado pelos londrinenses Mateus Gonsales (piano) e Marcello Casagrande (vibrafone). Você pode conferir a apresentação pelo Youtube.


Em 2015, a dupla lançou o CD de estreia, reunindo diversos compositores londrinenses. A Máquina do Som publicou, na época, a seguinte entrevista, ainda atual para se conhecer o trabalho do Duo Clavis. Confira:


Há um equilíbrio raro no impressionante CD de estreia do londrinense Duo Clavis, lançado neste ano com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Londrina. Ao mesmo tempo em que é bom de ouvir, o disco não deixa de questionar, provocar, tirar o ouvinte da escuta fácil – e por vezes desatenta.


Sim, você pode ouvi-lo no carro, como bálsamo para as dificuldades do trânsito. Mas quem procura mais, vai encontrar. Porque as obras, compostas em sua maioria por autores londrinenses, oferecem mistérios a serem desvendados e não se desnudam assim, de cara, na primeira audição.


Temos, portanto, um disco inteligente e prazeroso. Cujos labirintos podem levar ao estranhamento, ao desconhecido, ao jogo espetacular do improviso, mas também retornar ao conforto da melodia bem executada em alto nível técnico.


Formado por Marcello Casagrande (vibrafone e marimba) e Mateus Gonsales (piano), o CD mostra que há uma ótima geração de compositores jovens – mas não novatos – que merece maior atenção. Para completar, ainda faz homenagem a três mestres da música instrumental brasileira: César Camargo Mariano, Paulo Braga e Ney Rosauro. Surpreenda-se.




Máquina do Som - Eu ouvi o disco no Spotify e gostei pra caramba, só que o Spotify não dá os autores, e eu fiquei imaginando qual música era de quem. Eu já rodei, porque eu tinha achado que a Newtra [de Gilberto de Queiroz] era do André Siqueira, e a do André é a Chora-me. A Newtra começa com uma nota bem extensa, que fica...

Mateus Gonsales – Sabe o que é bacana, aqui no CD cada autor conta a história da música. Foram eles mesmos que fizeram esses textos. Esse ostinato, que é essa nota constante, é de um motor de um Monza que o Gilberto [autor da música] tinha. Cada um tem um jeito diferente de contar.


Esse é o primeiro disco do Duo e a maioria dos autores é londrinense. Essas obras são inéditas, compostas para o Duo?

Marcello Casagrande – As [músicas] dos compositores daqui [Londrina] são [compostas para o Duo].

Mateus Gonsales – A ideia era ter compositores londrinenses, só que nós não queríamos deixar de fora os nossos mestres.

Marcello Casagrande – Nossos professores.

Mateus Gonsales – O Paulo Braga [pianista], por exemplo, fez essa música há muito tempo. Cabeça de melão é para a filha dele e ele já tinha essa música, eu gostava muito dela, tocava já.

Marcello Casagrande – É para piano solo, né?

Mateus Gonsales – É para piano solo. E eu achei que a gente podia gravar essa música.

Marcello Casagrande – Com o Ney Rosauro [autor de Message a friend] também.

E os dois já deram aula em Londrina, tanto o Paulo Braga quanto o Ney Rosauro...

Marcello Casagrande – É por isso que eles têm essa relação com a cidade.

Mateus Gonsales – O César [Camargo Mariano] foi a única exceção, mesmo, e é um pianista que eu adoro e o Marcello também. É uma música que a gente já tocava no repertório quando a gente começou. Ela não ia entrar no CD, mas gravamos e ela ficou superbacana.


E ela abre forte o CD...

Mateus Gonsales – Aí fomos ver os direitos, a gente já tinha conversado com todos os autores, estava tudo certo.

Marcello Casagrande – A gente achou o representante dele [César Camargo Mariano], pagamos [os direitos] e pronto.

A maioria dos compositores é jovem, gente que está na ativa. Como começou essa conversa?

Marcello Casagrande – A ideia surgiu de um projeto que a gente fez em 2013 para circular pelo Paraná com um repertório que misturava coisas de Chick Corea [pianista] e Gary Burton [vibrafonista], mais de vibrafone e piano. E com as coisas brasileiras que a gente já tocava: César Camargo, Egberto [Gismonti], o próprio Paulo Braga. Com esse projeto, a gente iria gravar um CD. Só que não conseguimos captar [recursos].

Mateus Gonsales – O dinheiro da gravação não saiu.

Marcello Casagrande - No ano seguinte, em 2014, a gente fez pelo Promic e foi aprovado. E estava meio caminho andado.

Mateus Gonsales – Se a gente fosse gravar aquele CD, seria outro repertório. No meio do processo a gente conversou sobre isso: “E se a gente pegasse o pessoal daqui?”.

Marcello Casagrande – Era o aniversário de 80 anos de Londrina. E nós pegamos um pessoal que representa várias estéticas e gêneros diferentes que existem na cidade.

Mateus Gonsales – Ao mesmo tempo em que estávamos superanimados, estávamos preocupados, porque são estéticas bem diferentes. O [Fernando] Kozu e o Vitor Gorni são mundos diversos. E a gente arriscou.

Marcello Casagrande – Mas a gente achou legal porque não é um CD uniforme, que você escuta e prevê o que vem depois.

O disco não é uniforme, mas deu uma liga. Ele ficou redondo, não é algo disperso.

Mateus Gonsales – A gente colocou numa ordem que ligou. O Curumim [1ª faixa, de César Camargo Mariano] e a do Kozu [última faixa, Dupla Captura] ficaram em pontos diferentes, só que quando acaba o CD e começa de novo, parece que está começando uma nova história.





Como foi o contato com os compositores? Eu estou curioso para saber se eles apenas deram a partitura ou também deram sugestões...

Marcello Casagrande – Com alguns tivemos mais contato. O primeiro que fez a música para a gente foi o Vitor Gorni [clarinetista, saxofonista, compositor, arranjador]. O Vitor produz de um dia para o outro. Falei com ele na orquestra [Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina] e dois dias depois ele falou: “Está aqui”. O trabalho dele é aberto.


Mas o Vitor já escreveu para piano e vibrafone?

Marcello Casagrande – Já escreveu. Era uma peça [Mingus] que ele já tinha uns rascunhos para quinteto de metais, uma coisa assim.

Mateus Gonsales – Ele gosta muito de Mingus [Charles Mingus, contrabaixista, arranjador e compositor norte-americano], é uma homenagem.

Marcello Casagrande – E ele foi mais aberto, falou que era um esboço para a gente criar em cima. Mas a gente seguiu bem, só criou umas partezinhas ou outras. Já o Kozu é mais de trabalhar mesmo as coisas, muito elaborado.

Mateus Gonsales – [Dupla Captura] começa com uma sessão de acordes em quatro blocos que ele vai estender pela música inteira, é um outro processo de composição.

Marcello Casagrande – Aí já é mais partitura, mesmo.

Mateus Gonsales – O André [Siqueira – compositor, arranjador, multi-instrumentista] fez a música [Chora-me] para o bandolim. Tocando no piano, eu tenho muita dificuldade. E você vê ele tocando no bandolim, é mais fácil.





Passou para o piano, aí tem que dar nó no dedo...

Mateus Gonsales – Cada compositor tem o seu processo.

Rolou alguma tensão do tipo: “Será que o autor vai gostar”?

Mateus Gonsales – A gente ficou preocupado com todas as músicas.

Marcello Casagrande – A gente conversava, mas não rolou de mostrar o áudio de alguma gravação.

Mateus Gonsales – Somos amigos e de certa forma eles falaram: “Tá aí”. O André ficou mais curioso em querer ouvir.

Marcello Casagrande – A gente chegou a conversar porque a música do André tem o formato do choro. E aí tem uma parte que sempre se repetia. E pensamos: “Não vamos voltar mais uma vez [repetir uma parte], não, vamos direto”. Aí o Mateus conversou com ele por acaso e ele falou: “Não, é a forma do choro, tem que voltar”. E a gente quase gravou.

Mateus Gonsales – Quase gravamos e é completamente contra a ideia. Nesse caso foi bom [conversar].


Como foram as gravações? Vocês gravaram ao vivo no estúdio, tipo one take?

Marcello Casagrande – Vamos falar do Curumim [de César Camargo Mariano], por exemplo. A gente gravou três ou quatro takes e depois fomos ouvir qual estava melhor.


Mas vocês gravaram juntos...

Mateus Gonsales – Teve dois processos. Em algumas músicas, gravamos juntos, tocando ao vivo, e em outras gravamos separados, mas como se fosse juntos. Estávamos preocupados com a captação, estávamos experimentando.

Marcello Casagrande – É que às vezes [com os dois juntos no estúdio] ocorriam uns vazamentos [de som].


Mas o clima de espontaneidade ficou.

Mateus Gonsales - A ideia era ser o mais ao vivo possível, com mais acústica possível.

São nove composições e seis de autores londrinenses. Londrina está com uma produção bacana. Às vezes ela não aparece, mas tem gente compondo.

Marcello Casagrande – Esse foi um mote do CD: mostrar mesmo as vertentes que tem [em Londrina]. E ainda assim ficou gente de fora. A gente queria uma música do Mário [Loureiro, compositor], do Luciano Silva [compositor, instrumentista, arranjador], tinha mais gente, uns três ou quatro que não entraram por causa de tempo.

Mateus Gonsales – A gente precisava entrar no processo de gravação.





E um volume dois vem por aí, então?

Marcello Casagrande – De repente...

Mateus Gonsales – Acho que é uma ideia que a gente poderia estender a outros instrumentistas, para que a criação, a parte de composição de Londrina seja de certa forma divulgada, com uma maneira bacana de mostrar Londrina nesta parte de criação.

Marcello Casagrande – Tem o próprio [compositor, arranjador] Victor Lazzarini, que está na Irlanda... Há um tempo atrás ele escreveu para mim uma peça só de marimba. Eu falei: “O Victor tem que escrever”. Aí ele fez essa [Peabiru], muito legal. A peça do Ney Rosauro [Message a friend] originalmente era para saxofone e marimba, ele escreveu quando estudava na Alemanha. Depois começamos a tocar e vimos que soava legal com o piano. E mandamos para ele. A gente praticamente fez uma transcrição. Ele gostou tanto que achou que ficou mais legal do que para saxofone.


Vocês tocam juntos há quanto tempo?

Mateus Gosales – A gente se conhece há muito tempo, até pela Orquestra (Sinfônica da UEL), o Vitor [Gorni] me chamou para fazer alguns trabalhos. Aí começamos a tocar com outra instrumentação, com percussão, bateria. E eu tocando piano. O Marcello tem mestrado em percussão nos Estados Unidos e falou: “A gente podia fazer alguma coisa, adoro tocar vibrafone”.

Marcello Casagrande – A gente começou com o repertório de cada um.

Mateus Gonsales – Aí ele escolheu um tanto [de músicas], eu escolhi outro tanto e a gente foi tocar.


Vocês devem ter composições próprias.

Marcello Casagrande – Temos algumas músicas...

Mateus Gonsales – A gente começou alguma coisa, mas não tem nada pronto. Até poderia ter colocado uma composição, mas a gente achou melhor mostrar [a obra de outros compositores]. Mas temos essa ideia de fazer trabalhos mais autorais também, pensando no duo mesmo.


Como está sendo o retorno, a repercussão do disco?

Marcello Casagrande – O que é interessante é que cada pessoa gosta de uma música.

Mateus Gonsales – O músico gosta do CD. Uma pessoa que simplesmente gosta de música também acaba gostando. Quando a gente faz coisas mais elaboradas, a gente espera que as pessoas “normais” (risos)...

Marcello Casagrande – Vão ter um pouco de dificuldade. Não é uma ideia comercial.

Mateus Gonsales – Eu fiquei surpreso, as pessoas estão ouvindo o CD no carro. A gente fica superfeliz. Tem pessoas que gostam de um compositor, outras de outro. O gosto muda muito.

Marcello Casagrande – Têm surgido alguns conflitos para tocar, mas tudo por problemas financeiros. Nos chamaram para tocar em São Paulo, no Rio, mas aí os caras falam: “Ih, o dinheiro está curto”. É uma época meio difícil. A gente está correndo atrás de alguns patrocínios, montando um projeto para o ano (2016) que vem para circulação, pela Lei Rouanet ou coisa assim. Mas o CD está sendo distribuído pela Trattore (www.tratore.com.br/).


Quem quiser ouvir, como faz?

Marcello Casagrande – Tem no iTunes, no Google Play, Deezer, Spotify. Entrando no site próprio da Trattore (www.tratore.com.br/um_artista.php?id=18842) tem todos os locais de venda.


Como está o cenário da música instrumental? Há renovação de público? Às vezes a gente acha que a música instrumental tem um público mais específico...

Marcello Casagrande – É meio específico, mesmo. Aumentou um pouco de uns tempos para cá. Quando eu era mais jovem e tocava alguma coisa instrumental, não tinha tanto público. Acho que aumentou. Não sei se devido ao próprio curso [de Música] da UEL... O Festival de Música ajuda... Mas [a cidade] ainda é muito carente. Falta muito espaço, especialmente espaço para tocar. À noite, você tem alguns bares e o cara te oferece uma terça-feira, segunda-feira. E o que é bom mesmo fica para o sertanejo e os tributos. Mas músico não falta.

Mateus Gonsales – Não. Com a qualidade e quantidade de músicos neste cenário da música instrumental, eu acho que Londrina está muito bem servida. Tem gente que toca jazz, choro, música brasileira autoral. Então tem muitos músicos, a gente não tem do que reclamar.


Queria falar um pouco da formação piano e vibrafone. É um encontro que acontece no jazz, mas não é tão comum.

Marcello Casagrande – Esse formato, de música para improvisação, foram o Gary Burton e Chick Corea que fundaram isso, porque eles têm esse duo desde os anos 70... E daí tem a música de concerto, de câmara. Mas com essa abertura para improvisação, no Brasil, eu acho que tinha um e a gente só.

Mateus Gonsales – Eu vi que o André Mehmari [pianista, compositor] estava montando um.

Marcello Casagrande – Exatamente, o André Mehmari fez um agora, até com vibrafone, piano e orquestra sinfônica.

Mateus Gonsales – Nossa ideia inicial era rever Chick Corea e Gary Burton. Mas tinha umas peças que eu gostava de tocar do Egberto Gismonti e o Marcello falou: “Eu podia fazer na marimba”.


Você está tocando vibrafone e marimba, não é? Marimba é de madeira, e vibrafone de metal.

Marcello Casagrande – Isso.

Mateus Gonsales – Quando o Marcello foi para a marimba, abriu um outro mundo, a gente viu que dava para fazer outras coisas além da referência. Aí começou.

Marcello Casagrande – Então voltamos mais para a música brasileira.

Mateus Gonsales – A gente quer fazer música brasileira.


E contemporânea, né?

Mateus Gonsales – A gente gosta muito dos compositores mais antigos também.

Marcello Casagrande – A gente estava pensando num arranjo de choro, algo do lado B do choro, tem umas coisas instrumentais maravilhosas.


Vocês já falaram de um segundo volume... E daqui para a frente?

Marcello Casagrande – A ideia do Duo agora é divulgar este CD.

Mateus Gonsales - A gente está tentando alguns contatos, até no exterior.

Marcello Casagrande - Mas tudo isso envolve esse projeto que a gente está fazendo para o ano que vem. A gente está rascunhando para mostrar mais esse trabalho.

Mateus Gonsales – Tem um processo da divulgação do CD e a corrente de um novo trabalho, a ideia é não parar nunca. As pessoas estão dizendo: “O trabalho de vocês está lindo, não parem nunca”.




Confira o CD Duo Clavis faixa a faixa:

Curumim

A faixa Curumim, composição de César Camargo Mariano, é destaque do álbum Samambaia, de 1981, que marcou a pareria de dois dos maiores nomes da música instrumental brasileira. O projeto reuniu o notável pianista, arranjador e compositor César Camargo Mariano e o violonista de renome internacional Hélio Delmiro.


Newtra

A ideia geral dessa música surgiu da observação do funcionamento do motor de um Monza 84 que eu tinha e que, ao colocar na marcha lenta (neutra), emitia um ostinato rítmico, claro que com muitas variações. Quando Casagrande me pediu uma composição, imediatamente me veio o “motor” em mente. O tema foi gerado a partir dessa ideia, no modo dórico e com ideias quartais e tons inteiros, numa mistura da música tradicional erudita do início do século XX e do jazz moderno. (Gilberto de Queiroz, julho de 2014).


Mingus

Essa peça foi dedicada ao Charles Mingus, uma das minhas grandes influências musicais. Na parte A, a melodia está sustentada por um ostinato rítmico e harmônico. Na parte B, a sensação constante de modulação predomina. (Vitor Gorni, julho de 2014).


Cabeça de melão

Cabeça de melão: única composição minha que nasceu com nome... em homenagem às minhas eternas queridas filhas, fiz esta música que tem uma citação a Marcha soldado, cabeça de papel... na parte B. Uma canção sem palavras para estas que são duas pessoas que mudaram minha vida para sempre... Betina e Roberta... minhas lindas filhas. (Paulo Braga, julho de 2014).


Chora-me

Chora-me é uma peça composta para bandolim e posteriormente retrabalhada especificamente para o Duo Clavis, com formação de piano e marimba. A composição é baseada na forma do choro, em três partes, obedecendo às repetições tradicionais A-B-A-C-A, porém, com uma sessão de improvisos e com métricas alternadas, realizando umdiálogo entre a cultura popular brasileira, o jazz e a música contemporânea. Nos situamos aqui no terreno um tanto incômodo àqueles que possuem apego a classificações rígidas, no entanto, um chão maravilhosamente livre para os que gostam da música sem rótulos e da busca de uma escritura própria; dividindo com os músicos Marcello Casagrande e Mateus Gonsales o prazer da cocriação. (André Siqueira, agosto de 2014).


Lavezzi

Existe uma pequena ilha, no Mediterrâneo, entre a Cósega e a Sardenha. Uma ilhota selvagem, solitária. Um punhado de pedras graníticas mergulhadas em água cristalina. No seu coração tem um pequeno cemitério onde descansam 700 almas, vítimas de um naufrágio acontecido no século passado. A ilha amanhece calma, pacífica, silenciosa, quase melancólica. Mas, improvisadamente, no começo da tarde, quando o Mistral, vento do noroeste, começa a soprar, seu mar se revolta e castiga qualquer embarcação que se encontre desprevenida nas vizinhanças. Finalmente, ao entardecer, o vento cala e voltam a paz e o silêncio, tão caros aos únicos habitantes da ilha, os 700 marinheiros. O nome da ilha é Lavezzi. (Marco Veronezzi, agosto de 2014).


A message to a friend

A música A message to a friend foi escrita em 1983 quando estava estudando na Hochschule fur Musik Wurzburg, na Alemanha. A obra foi encomendada por meu colega Mark Lutz, que estava formando um duo com o saxofonista canadense Norman de Chenes. A estreia e a primeira gravação foram feitas por eles no ano seguinte. Mark me pediu que escrevesse algo com gosto brasileiro e que tivesse uma parte aberta para improviso livre e assim surgiu essa obra que é um baião em 5/4 e que, apesar de brasileira, soa distinta da música folclórica tradicional. Escutei a versão do Marcello e do Mateus e gostei bastante pela energia e precisão, portanto fico contente que agora eles estão gravando esta obra. (Ney Rosauro, julho de 2014).


Peabiru

Diz-se que o caminho do Peabiru começava em São Vicente e terminava além dos Andes. Grande estrada pré-colombiana, é também ligada à lenda de Pai Sumé, uma figura semissagrada dos Tupis e Guaranis que viviam no sudeste brasileiro. A minha música é uma homenagem a esse povo que foi indiscretamente empurrado para fora de sua terra, mas que continua a viver em topônimos como este, e também em nossa própria língua, no dialeto caipira. (Victor Lazzarini, julho de 2014).


Dupla Captura

A peça Dupla Captura, num sentido extramusical, busca agenciar dois planos de pensamentos distintos: o musical e o conceitual. No entanto, o mesmo momento desta articulação, o que seria “fora” da música, já é um “dentro”; ...e a partir da leitura do conceito filosófico “dupla captura”, de Gilles Deleuze, o pensamento dispara uma série de “seres-de-sensações-sonoro-musicais”, como o bloco de acordes que é o ponto de partida desta peça. Neste sentido, agora já propriamente musical, este bloco sonoro se desdobra em outras ideias e relações composicionais, num jogo entre o piano e o vibrafone: blocos e ressonâncias; movimentos de sincronismos assimétricos; fragmentos de figuras roubadas e retomadas; linhas obstinadas, linhas de evolução a-paralelas, linhas no extremo do agudo e do grave, linhas de fuga: um zigue-zague na própria linha do tempo e da expressão; um grunhido em pianíssimo, um devaneio e um certo estranhamento; um desacordo, um desalinhamento que faz repercutir sons próximos e distantes; latência de vibração desta lâmina metálica do agora: memória e esquecimento. (Fernano Kozu, julho de 2014).

Comments


  • Facebook
  • Twitter

©2019 por Máquina do Som.

bottom of page