Luiz Bueno & Duo Clavis, um violonista em estado de graça
- Ranulfo Pedreiro
- 26 de ago. de 2022
- 4 min de leitura
Texto de Aquiles Rique Reis (MPB4)

Inicio este escrito informando aos que o lerão que considerei o convite do Luiz Bueno para escrever sobre o seu novo trabalho solo Magia Instrumental – Luiz Bueno & Duo Clavis (Fine Music) como um prêmio. Foi assim que mergulhei na alma da criação do trabalho. Através de alguns áudios, Luiz abriu seu coração e me deixou à vontade para perscrutá-lo.
Magia Instrumental tem como tema a Floresta Amazônica – Luiz sempre foi fascinado pela Amazônia, tanto que viajou até lá, para melhor sabê-la, em 1967. Nos dias atuais, sabendo-o avesso à alopatia, um amigo lhe falou sobre o Instituto Nawa, criado pela tribo Huni Kuin, do Acre, onde o pajé Ixã realizava cerimônias com ayahuasca, valendo-se de rapés.
Um parêntese: rapés são substâncias feitas a partir de plantas amazônicas medicinais, tabacos, árvores, folhas, sementes e outros ingredientes. Os povos indígenas que fazem uso do rapé, o fazem em cerimoniais, como uma forma de oração à natureza, como uma bênção aos animais da floresta, e sobre o poder das plantas medicinais para curar e dar força aos que delas fazem uso. E foi a partir desses mistérios ancestrais, que Luiz, em reverência aos diversos tipos de rapés, titulou cada uma de suas composições gravadas em seu novo trabalho (títulos esses citados mais à frente deste texto).
E Luiz se deu à criação. Uma a uma, registrou-as com o violão (detalhe, ele não escreve, nem lê músicas) e as enviou para o Duo Clavis, para que seus integrantes, o pianista Mateus Gonsales e o vibrafonista Marcello Casagrande, traduzissem para a linguagem de seus instrumentos o que Luiz tocava no violão. Os “meninos”, que são de Londrina e admiradores de Luiz Bueno, vieram para São Paulo e gravaram o que haviam sacado da audição das músicas do violonista. Nada escrito! Tudo criado na hora, como se fosse “uma benção”, relata Luiz Bueno, com voz emocionada, num dos áudios que me enviou.

Não fosse Luiz um perfeccionista contumaz, o extremo cuidado técnico com todas as etapas de confecção do álbum, desde a criação, o registro das músicas e da mixagem, até a posterior masterização, são impecáveis. E, além disso, são totalmente perceptíveis para ouvidos nus e crus de ouvintes com todo e qualquer entendimento técnico – o que vale em Magia Instrumental é a essência da música que ouvem.
Mas vamos à ela. Tudo começa com Aroeira: o violão clássico de Luiz vem delicado. A melodia é forte como seu violão e intensa como sua música.
Bashawa: novamente o violão vem suave. O vibrafone se achega. Desenhos melódicos marcam o arranjo. Piano, vibrafone e violão se atiram no esplendor da sonoridade conjunta. Os sons graves dominam cada acorde. De arrepiar!
Cumaru: a levada é ligeira. O trio se alvoroça: piano dedilha, violão desenha, vibrafone improvisa. Unidos, o coro come, e a melodia se mostra inteira.
Mulateiro: a pegada vem do vibrafone. Logo violão e piano se esbaldam. O violão improvisa em desenhos. O suingue sacode o arranjo. O vibrafone protagoniza. O piano trisca as notas. O violão a todos abraça, num solo com a palma da mão “raspando” as cordas.
Paricá: o tema vem com Luiz. O vibrafone soa em acordes. Logo o violão improvisa. O piano ajusta o arranjo. O vibrafone muda a levada e traz o violão e o piano.
Samauma: pela primeira e única vez, o zig-zum (pequena vareta de jacarandá meio abaulada, que passada por entre as cordas do violão emite um som similar ao da rabeca) brilha desde a intro. Após um pianíssimo, o tema recomeça com o trio em brilho total. A sonoridade é deslumbrante, cuja dinâmica a amplia. O vibrafone improvisa. O violão reassume o proscênio.
Murici: o arranjo é formidável. Com o DNA de Luiz Bueno, os desenhos se multiplicam. Tudo conspira para que o tema se engrandeça pelas mãos dos instrumentistas. E mais uma vez eles se complementam harmoniosamente em nome da beleza.
Tsunu: o vibrafone inicia o tema curto. Violão e piano vêm a seguir. A música é linda! O violão arrasa, o piano também. O vibrafone segue brilhando. Todos vibram em sintonia.
Cactus: o trio toca outro tema curtinho, lindo, a exalar a magia da tranquilidade que o violão de Luiz Bueno traduz e representa. Vibrafone e piano mantêm o som em modo límpido. A tampa fecha com um acorde de notas graves.
O som espontâneo, viril até, vem envolto numa sonoridade que revela a vida atual de Luiz, desde a gravação de seu violão até sua soma ao piano e ao vibrafone. (Aliás, me chamou atenção o fato de os três instrumentos serem de harmonia, coisa que, rasamente cheguei a temer, poderia trazer alguma fricção aos arranjos.)
Não trouxe! Claro que não trouxe! Solos, duos e trios vêm instigados pelo talento dos instrumentistas, sagrados pelas águas do rio-mar e abençoados pela grande floresta.
Tendo a ampará-lo a virtude do Duo Clavis, Luiz Bueno está soberbo em seu ofício de fazer do violão a sua vida. E é justamente aí que se reconhece um violonista em estado de graça.
Ficha técnica:
Composições autorais de Luiz Bueno.
Luiz Bueno - violão clássico e zig-zum.
Duo Clavis:
Marcello Casagrande - vibrafone.
Mateus Gonsales - piano.
Produção e mixagem por Alexandre Fontanettie e Luiz Bueno.
Gravação e masterização - Estúdio Space Blues por Alexandre Fontanetti em 2022.
Edição por João Nhoque.
Projeto gráfico por Helena Cecilia.
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